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E se calha um juiz maluquinho?

Boahora_2 Poder judicial. Um dos três pilares do Estado.

Mas o sistema judicial, por si próprio, é vazio. Para estar em marcha necessita das pessoas. E nesta comunidade, o topo da hierarquia é ocupado pelos juízes.

Olhemos para outros lados da sociedade: um bombeiro, um polícia ou um piloto de aviões para desempenhar as suas missões tem de demonstrar que está cabalmente em pleno uso das suas faculdades mentais. Para tal, tem de passar por testes psicotécnicos e de personalidade. Mas, e os juízes, que decidem sobre as nossas vidas, sobre se uma pessoa passará ou não os próximos anos na prisão? Que avaliação há sobre eles? Sobre o seu estado emocional, se sofre de depressões agudas, se sofre de transtorno bipolar ou, mesmo, de esquizofrenia?

A verdade é que, num país com uma das maiores taxas de depressão, com um sistema judicial super-pressionado desde a complexidade dos casos, ao volume de trabalho acumulado, às más condições físicas dos espaços judiciais, e necessariamente à má qualidade de vida dos seus funcionários, há juízes e procuradores da República com graves problemas de saúde mental, que continuam nos postos de trabalho e tomam decisões sobre a vida dos cidadãos.

E num julgamento, em que não é permitido questionar a forma como o juiz o conduz, mas apenas se a pena que aplica se enquadra na moldura legal existente, quem defende o cidadão perante um magistrado que sofra de depressão grave, de ansiedade, que argumenta de forma absurda ou que tarde anos em pronunciar uma sentença?

abril 21, 2008 | Permalink | Comments (2)

Páscoa esquecida

Rubens_resurrection_christtm (Rubens - Ressurreição de Cristo)

Esta semana celebra-se o mais importante acontecimento para os crentes cristãos: a Páscoa da Ressurreição de Jesus Cristo. A par do Natal, é a festividade mais popular no mundo cristão, mesmo que não celebrado na mesma data em toda a cristandade. No entanto, tal como o Natal, esta festividade essencialmente de cariz religioso está a perder a sua originalidade, a favor de um mundo cada vez mais materialista, consumista e comercial.

Dos valores da partilha e da família; do 'sacrifício' da privação em favor da partilha com os outros, sobretudo os menos favorecidos, cada vez menos se fala. A caridade, no seu sentido mais puro, é desprezada: "dêemos a cana e ensinemos a pescar, em vez de darmos os peixes", gosta de apregoar a esquerda bem pensante, comodamente assente nas suas vidinhas burguesas. Mas as pessoas sofrem, têm privações e as políticas sociais do Estado-protector, estão, há muito, condenadas ao fracasso, sendo paulatinamente abandonadas pelos próprios esquerdistas quando estão no poder.

Os activistas pela laicidade do Estado, que combatem toda e qualquer ingluência religiosa, na vida estatal, por sua vez e hipocritamente, esfregam as mãos de contentes com os feriados religiosos: nunca vi nenhum ir, de modo próprio, trabalhar nesses dias ou se tendo de trabalhar, o ganhar como se de um dia normal tratasse.

Praticamente três mil anos depois, a mensagem está aí para quem a quiser ouvir: o mistério da Ressurreição, a Esperança na Vida, um estilo de vida mais desapegado do materialismo e, por isso mesmo, espiritualmente mais rico e compensador.

março 17, 2008 | Permalink | Comments (1)

Homem humilde, glória de reinado

030tiziano_felipeii_51203c

Desde há muito que uma das figuras da História de Portugal que mais admiro é o rei Filipe I (II de Espanha), conhecido no país vizinho por 'el rey papelero', dada a sua capacidade de trabalho e a sua 'produção' legislativa.

Tornado rei de Portugal em 1580 por vicissitudes da História, sempre teve o bom senso de não unir os dois reinos. Sempre os encarou como Estados separados que, por acaso, tinham o mesmo rei.

Agora, pela mão do historiador Henry Kamen surge uma nova biografia do rei(Filipe I. O Rei que uniu Portugal e Espanha, editora Esfera dos Livros),  pondo a nota na sua dimensão humana.

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Segundo Kamen, Felipe I não tinha interesse em Portugal, embora se considerasse um português: sua mãe e sua ama eram portuguesas, assim como o português era a única língua que falava bem, a par do castelhano e de um pouco de catalão.

Registe-se que, curiosamente, sempre que um rei de Espanha pretendeu a coroa portuguesa, tinha o direito sucessório do seu lado, que lhe apoiava as pretensões. Ao longo da História, o único pretendente espanhol a Portugal, sem apoio de 'juris', foi Godoy, como o beneplácito de Napoleão. Mas Godoy também não era rei...

Voltando a Felipe, este recusa a ostentação típica dos monarcas europeus do seu tempo. Roupas simples, nunca foi representado a cavalo - símbolo de poder - e que achava que o poder era emanado de Deus e de não de si mesmo, entendendo que o monarca era, de todos os cidadãos de um reino aquele que mais deveres tinha. A suma humildade foi a tal ponto que, um ano antes de assumir a coroa portuguesa, aboliu o tratamento de magestade, reclamando o simples 'senhor', remetendo a monarquia para o um papel de servir o povo e não ser servida.

Henry Kamen, professor do Conselho Superior de Investigação Científica em Barcelona, considera que a entrada de Felipe I em Portugal resultou de circunstâncias internacionais e teve o objectivo de evitar que o país fosse ocupado pelos ingleses ou os franceses, principais adversários de Espanha. Por outro lado, na política ultramarina, havia na época uma preocupação real: o crescente poder dos protestantes na América do Norte e consequente ameaça para os católicos nas colóniasque Espanha detinha no continente, em última análise, para o Brasil e para as colónias espanholas na América meridional.

Finalmente, há duas fases na personalidade de Felipe: uma primeira centrada na dimensão ibérica, que se altera profundamente após a viagem que o monarca fez em 1548 aos Países Baixos, Itália e Alemanha. A partir daí, este que foi o rei mais viajado do seu tempo, pois além desta viajem ainda viveu cinco anos em Inglaterra e três em Portugal, importa ideias e modelos: encomenda retratos a Ticiano, segue os modelos dos paláicos e jardins dos Países Baixos, contrata arquitectos italianos para construir palácios seus, em Espanha e em Portugal.

É partir do seu Reinado que Espanha se tornou verdadeiramente grande, monumental, uma influência que ainda predura nos dias de hoje, mais de 400 anos depois.

março 10, 2008 | Permalink | Comments (2)

De volta à escarpa

Falcao_4 Há quase 30 anos que deixei as cordas, os grampos, as espias. Que deixei essa aventura de conquistar coisa nenhuma, que é a escalada. Tenho boas recordações desses tempos. Da partilha da amizade e do trabalho em equipa. De estarmos, depois de uma escalada mais difícil, sentados tranquilos olhando a paisagem, no singular silêncio dos espaços bravios.

Ontem, por motivos de trabalho, tive de voltar à escarpa, desta feita na Praia da Ursa, junto ao Cabo da Roca, em Sintra. e acabou sendo um prazer muito particular redescobrir as técnicas da escalada, sentir o corpo vibrar sob o efeito do esforço, voltar ao desafio de superar os meus limites, os meus medos porque na escalda tem-se isto: cada um compite essencialmente consigo próprio.

E por um momento, revivendo a recordação, senti-me tocado pela Luz...

março 09, 2008 | Permalink | Comments (1)

Mais o que nos une, que o que nos separa

  1. Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.
  2. Louvado seja Deus, Senhor do Universo,
  3. Clemente, o Misericordioso,
  4. Soberano do Dia do Juízo.
  5. Só a Ti adoramos e só de Ti imploramos ajuda!
  6. Guia-nos à senda reta,
  7. À senda dos que agraciaste, não à dos abominados, nem à dos extraviados.
  8. Pai nosso
  9. Que estais no céu,
  10. Santificado seja o vosso nome,
  11. Venha a nós o vosso Reino,
  12. Seja feita a vossa vontade
  13. Assim na Terra como no Céu.
  14. O pão nosso
  15. De cada dia
  16. Nos dai hoje.
  17. Perdoa as nossas ofensas,
  18. Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.
  19. Não nos deixeis cair em tentação
  20. Mas livrai-nos do Mal.
  21. Porque grande é o Poder, a Honra e a Glória.

O Vaticano e religiosos islâmicos estão a preparar uma acção conjunta de diálogo religioso, que, se tudo correr bem, envolverá o próprio Papa. Escolhi a primeira sutra do Corão e a oração por excelência dos Cristãos. Se lermos nas entrelinhas, é mais o que une do que o que separa...

Nos primeiros tempos da presença islâmica na Península Ibérica, a igreja maior de Toledo, em Espanha,Toledo  foi transformado em lugar de culto para as três religiões do 'Livro' (com origem na colectânea da Bílbia): Judeus, Cristão e Muçulmanos. Às sextas, enchia-se o templo de fiéis islâmicos, que oravam voltados para Meca para, no dia de sábado, ecoarem entre as paredes os cânticos salmodiados da Tora e, finalmente, ao domingo, os cristãos relembrarem a Ressusreição em que acreditam. Um breve exemplo na História, de que a tolerância é possível...

Sob o mesmo céu que nos protege...

março 05, 2008 | Permalink | Comments (1)

Um chá no deserto

Em 1990, Bernardo Bertolucci filmou ''Um Chá no Deserto', com Debra Winger e John Malkowich, baseado na obra de Paul Bowles The Sheltering Sky - 'O Céu nos Protege' na tradução portuguesa.
Também por essa altura a minha vida levava-me bastantes vezes a Marrocos, ao deserto, às tribos berbéres do Atlas. Com eles aprendi o significado do chá.
Entre um filme, um livro e as viagens, aprendi a amar o Magrebe e as suas gentes.Rasd7
Recentemente, um amigo saharauí, Lamine, relembrou-me o significado do chá, enquanto o preparava à sua maneira, com os gestos da paciência e da sabedoria:
A primeira taça de chá é amarga como a Vida.
A segunda taça de chá é doce como o Amor.
A terceira taça de chá é suave como a Morte.

Obrigado Lamine por partilhares a Sabedoria...

março 02, 2008 | Permalink | Comments (0)

Missas

No meu tempo de menino em que ainda ia à missa dominical, o padre ferrava com cada sermão que, na melhor das hipóteses, era de meia-hora, porque 'estava com pressa'. Caso contrário, não nos livravamos de uma hora de homilía. Claro que ao fim dos primeiros dez minutos, as nossas atenções infantis já estavam dispersas em multiplas brincadeiras, os mais velhos ou comentavam as meninas presentes no templo ou preparavam partidas do arco da velha para a saída dos fiéis. E os adultos... Bom, ou dispersavam-se a deitar contas pensativas à vida ou, mais prosaicamente, dormiam, até serem acordados em sobressalto por um grito mais alto do velho Padre Paulo que, de surdo, não tinha a noção de como soava alta a sua voz. Eram sermões ainda da velha escola, quando nos seminários a Oratória e o Latim eram matérias obrigatórias e nem sequer se acreditava que algum dia haveria de surgir uma lufada de ar fresco na vestuta Igreja Católica e que se chamaria Vaticano II, por obra e graça do bom Papa João. Apesar das tentativas de renovação da Igreja, uma coisa ficou de pedra e cal: sempre muito gostou à padralhada, sermões intermináveis. Então em ocasiões de festas e peregrinações, é de se fugir... Os prelados demonstram mesmo o quanto anseiam por botar faladura, por despejar na ocasião os dias e dias de silêncio por falta de ouvintes... Agora, o Vaticano está a levar a preparar um conjunto de normas para melhorar a celebração das missas. Se em alguns aspectos aparenta um reforço da ortodoxia, pelo outro procura dar um significativo passo adiante: as homilías não devem ter mais de dez minutos. E com isto, lembro-me do velho e polêmico Cardeal O'ConnorJohncardinaloconnor , de Nova Iorque: sempre que estava na 'Big Aple', de que sentia pastor do seu rebanho, apesar de ter ascendido à púrpura cardinalícia, celebrava a missa das oito da manhã na catedral e a sua homilía não durava mais que um minuto ou dois, centrada no Evangelho do dia. E fazia questão de terminar o ofício divino às 8h20, de modo a que os fiéis pudessem ser pontuais nos seus trabalhos. Segundo O'Connor, o resultado das homilías breves, centradas apenas numa ideia, era de que os fiéis recordavam o tema durante o dia, reflectindo sobre os pontos essenciais do Cristianismo, recordando-os, inclusive, vários anos depois. Pelo contrário, os sermões de 'hora e meia', apenas acabam por misturar os temas, numa amálgama difusa, muitas vezes esquecida ainda antes da missa ter terminado. Não é por acaso que actualmente em Inglaterra as homilías não duram mais que dez a quinze minutos e as missas dominicais, mesmo cantadas, não se prolongam por mais de uma hora. Ou padre corre o risco de ficar a falar para as paredes. Literalmente.

fevereiro 27, 2008 | Permalink | Comments (0)

Avance da moda de Verão para Praia

Burkinis

_burkini2 Burkini1 Confessem lá se não ficam sexys?

fevereiro 26, 2008 | Permalink | Comments (0)

Ansiedade

Que me lembre, nunca esperei com tanta ansiedade os tenros brotos dos lódãos da minha rua como no presente Inverno. Mas esta manhã, quando rolava tranquilo na moto, descortinei-os, pouco mais que milimétricos, nos ramos ainda despidos. Como se me alegrou a alma!

E o meu pensamento voou também para outros ramos nús, cortados, mas prenhes de vida, que também devem estar a rebentar, nas planícies das 'Terras do Grande Lago'. Ramos que, a seu tempo, se vestirão de folhas verdes claras e de minúsculos cachos, quais cabeças-de-alfinete, promessas de doces uvas, do milagre mediterrânico do vinho, seiva daquelas terras saibrosas.

Com o consolo da alma segui tranquilo...

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Entretanto, cientistas dos departamentos de Psicologia e de Saúde de Universidades do Reino Unido, Estados Unidos e Canadá publicaram na revista PLOS Medicine os resultados de um estudo que apontam um fraco resultado real dos medicamentos anti-depressivos da família dos inibidores selectivos de serotonina.

Segundo o estudo, nos casos de depressões leves, os placebos obtiveram tão bons resultados quanto medicamentos como o Prozac, Seroxat, Effexor ou Serzone. Já nas depressões pesadas, aí sim, registaram-se resultados satisfatórios com o uso dos referidos medicamentos, combinado com psicoterapia.

Estas novidades fazem-me recordar que Portugal é um país de gente deprimida. E esta depressão colectiva prende-se com o esvaziar das espectativas, com a falta de tempo para o carinho, com o egoísmo com que nos olhamos e não olhamos o 'outro'. E penso, talvez ingenuamente, que se tivéssemos uma outra atitude, outro mundo seria possível...

fevereiro 26, 2008 | Permalink | Comments (0)

Altos e baixos

Escrever tem altos e baixos. Há quem escreva pelo puro prazer, há quem escreva para um público. Quero situar-me no meio termo, com o prazer da escrita e a alegria de ter quem leia.

Mas...

Escrever tem altos e baixos.

Como tudo na vida.

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fevereiro 24, 2008 | Permalink | Comments (1)

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