No meu tempo de menino em que ainda ia à missa dominical, o padre ferrava com cada sermão que, na melhor das hipóteses, era de meia-hora, porque 'estava com pressa'. Caso contrário, não nos livravamos de uma hora de homilía. Claro que ao fim dos primeiros dez minutos, as nossas atenções infantis já estavam dispersas em multiplas brincadeiras, os mais velhos ou comentavam as meninas presentes no templo ou preparavam partidas do arco da velha para a saída dos fiéis. E os adultos... Bom, ou dispersavam-se a deitar contas pensativas à vida ou, mais prosaicamente, dormiam, até serem acordados em sobressalto por um grito mais alto do velho Padre Paulo que, de surdo, não tinha a noção de como soava alta a sua voz. Eram sermões ainda da velha escola, quando nos seminários a Oratória e o Latim eram matérias obrigatórias e nem sequer se acreditava que algum dia haveria de surgir uma lufada de ar fresco na vestuta Igreja Católica e que se chamaria Vaticano II, por obra e graça do bom Papa João. Apesar das tentativas de renovação da Igreja, uma coisa ficou de pedra e cal: sempre muito gostou à padralhada, sermões intermináveis. Então em ocasiões de festas e peregrinações, é de se fugir... Os prelados demonstram mesmo o quanto anseiam por botar faladura, por despejar na ocasião os dias e dias de silêncio por falta de ouvintes... Agora, o Vaticano está a levar a preparar um conjunto de normas para melhorar a celebração das missas. Se em alguns aspectos aparenta um reforço da ortodoxia, pelo outro procura dar um significativo passo adiante: as homilías não devem ter mais de dez minutos. E com isto, lembro-me do velho e polêmico Cardeal O'Connor
, de Nova Iorque: sempre que estava na 'Big Aple', de que sentia pastor do seu rebanho, apesar de ter ascendido à púrpura cardinalícia, celebrava a missa das oito da manhã na catedral e a sua homilía não durava mais que um minuto ou dois, centrada no Evangelho do dia. E fazia questão de terminar o ofício divino às 8h20, de modo a que os fiéis pudessem ser pontuais nos seus trabalhos. Segundo O'Connor, o resultado das homilías breves, centradas apenas numa ideia, era de que os fiéis recordavam o tema durante o dia, reflectindo sobre os pontos essenciais do Cristianismo, recordando-os, inclusive, vários anos depois. Pelo contrário, os sermões de 'hora e meia', apenas acabam por misturar os temas, numa amálgama difusa, muitas vezes esquecida ainda antes da missa ter terminado. Não é por acaso que actualmente em Inglaterra as homilías não duram mais que dez a quinze minutos e as missas dominicais, mesmo cantadas, não se prolongam por mais de uma hora. Ou padre corre o risco de ficar a falar para as paredes. Literalmente.
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