Na capital do Chade, N'Djema, está a decorrer o julgamento de seis franceses, da ONG 'Arca de Zoé', três chadianos e um sudanês, acusados de tentarem fazer sair do país 103 crianças, supostamente refugiados da vizinha região sudanesa do Dafur, mas na realidade, menores chadianos e com parentes adultos vivos.
Os franceses mantêm a convicção de que estas crianças serem sudanesas, com base nas declarações dadas pelos agentes angariadores na zona. Possívelmente os chadianos e os sudaneses detidos mas cujo papel nunca foi claramente divulgado pela comunicação social europeia.
O ministério público chadiano pediu penas entre os 7 e 11 anos de trabalhos forçados para os franceses, bem como uma indemnização de 6,3 milhões de euros, alegadamente para serem distribuídas pelas 103 crianças alegadamente sob sequestro, e ainda a preensão do avião, um Boeing. A indemnização a ser distribuída da maneira como o Procurador defendeu, daria 61.165 euros a cada uma.
O mais interessante é que mais de metade dos dez milhões de habitantes do Chade, sobretudo nas regiões do leste do país, que fazem fronteira com o Sudão e de onde são oriundas as crianças, vivem com menos de 70 cêntimos de euro por dia. O que significa que esta verba a cada uma das rferidas crianças - não é que não tenham direito a uma indemnização, mas esta deve ser regida pelo bom-senso e enquadrada na realidade social do país - as tornaria absurdamente milionárias, perante a restante população das suas aldeias. E como tal, factor de destabilização social.
Mas conhecendo, como conhecemos, o que é a corrupção nos países africanos, temos sérias dúvidas sobre se as crianças viessem a receber, verdadeiramente qualquer indemnização, ficando o dinheiro 'perdido' pelo caminho, mas nãos dos muitos políticos e funcionários.
Quanto ao caso do pedido de arresto do avião, basta lembrar o sucedido em 2004 na Venezuela. Um avião, neste caso português, foi apreendido pelas autoridades venezuelanas, por estar a fazer um serviço fretado para três portuguesas, uma das quais traficante de cocaína e que meteu a bordo várias toneladas de droga, com ajuda dos seus cúmplices, que não eram nem os outros passageiros, nem a tripulação do avião, um jacto topo de gama, Citation X, no valor de 16 milhões de euros.
Cerca de um ano depois, o dito avião foi alegadamente roubado a favor do vice-presidente do país, Vicente Rangel, com a cumplicidade de um general do exército venezuelano, que com documentos falsos logrou levantar a documentação do aparelho no tribunal de Roa. Entretanto, a aeronave foi ilegalmente utilizada pelas altas patentes militares e politicas da Venezuela.
Um exemplo do que acontece em países onde a corrupção é palavra de ordem, o que também não augura nada de bom para este caso no Chade.
Um terceiro aspecto: as organizações dos direitos humanos, sobretudo de índole anti-esclavagista africana e com sede nos países americanos, acusam com frequência e vigor e praticamente em exclusividade os brancos, sobretudo portugueses e espanhóis, de terem pracidado a escravatura e de terem levado de África para as Américas, milhões de negros. Mas os que estes moralistas se 'esquecem' é que os seus irmãos negros e africanos da costa marítima também estiveram envolvidos até às orelhas no tráfico de escravos, já que eram estes que faziam as 'caçadas' dos seus irmãos de raça nos territórios do interior para os vender por bom dinheiro aos brancos negreiros. Esta prática leva, por si, a estabelecer sérias dúvidas sobre o verdadeiro papel dos alegados agentes locais da 'Arca de Zoé': não teriam eles falsificados as coisas para comodamente angariarem o número de crianças 'refugiadas' que a organização pretendia levar para França, sem ter que se arriscarem aos campos de refugiados?
Com tudo isto, fica uma das questões fundamentais em relação ao julgamento dos franceses no Chade: com o pedido deste valor de indemnização, com padrões absurdamente altos para o nível económico do país, mais o pedido de arresto do avião, que não pertence à organização, apenas tinha sido alugado e onde as crianças nem chegaram a entrar, é para se questionar se isto é um verdadeiro pedido de justiça ou uma forma fácil de extorquir dinheiro aos brancos para encher os bolsos dos mandarins negros...
(O Citation X apreendido na Venezuela, com a droga - foto: d.r.)